Transformar a mente
Paulo, por meio de seu exemplo, nos deixou um
modelo de conversão e evangelização para tantos povos e culturas. Em suas
cartas, encontramos ensinamentos profundos, não apenas teológicos, mas também
de sua própria vida, que servem como exemplo de conversão no caminho de Damasco,
inspirando muitos nesta jornada da vida rumo ao céu.
São Paulo escreveu inúmeras cartas às diversas
comunidades que estavam sendo evangelizadas após a morte e ressurreição de
Cristo. Ele se dirigiu a cada uma dessas comunidades, como uma igreja nascente,
com uma mensagem que respondia às divergências e dificuldades que elas
enfrentavam. Mas, de modo geral, Paulo explorou uma miríade de temas teológicos
em todas elas, temas que continuam a iluminar a vida da Igreja até os dias de
hoje.
Em sua carta aos Romanos, Paulo se refere à
necessidade de conversão entre os cristãos e como a mensagem, juntamente com a
vida de Jesus, deve iluminar a nossa própria vida. As cartas de São Paulo
contêm inúmeras passagens que mencionam a necessidade de conversão que todos
compartilhamos como um chamado para transformar nossas vidas, não apenas porque
esta foi a primeira exortação que Jesus nos deu durante sua vida, mas também
porque foi a tarefa que ele confiou aos seus apóstolos, formando a essência da
obra missionária e apostólica da Igreja. Mas São Paulo, neste sentido, enfatiza
a conversão como uma mudança de mentalidade e uma modificação de comportamento
diante das falhas morais de nós, crentes.
A palavra "conversão", nesse sentido,
dirigia-se a três grupos sobre os quais São Paulo se pronunciou. Primeiro, aos
judeus do povo de Israel, aos quais Cristo se dirigiu inicialmente como o
Messias, por serem o povo escolhido de Deus. O clima geral da igreja primitiva
após a ressurreição de Cristo era de rejeição, por parte das autoridades, da
aceitação de Cristo como o Messias, figura tão frequentemente mencionada pelos
profetas do Antigo Testamento.
Essa rejeição de Cristo como Filho de Deus pelo
povo de Israel levou o povo a direcionar a mensagem evangelizadora aos gentios,
que, por meio de sua conversão, começaram a abandonar a idolatria e as práticas
pagãs. Foi então que São Paulo se tornou o evangelizador de inúmeras
comunidades e de todas as nações.
São Paulo também se dirige a um terceiro grupo
em seu convite à conversão: os cristãos recém-convertidos. Ele os convida a
viver sua vocação cristã mais profundamente, a abandonar as rivalidades e
divisões que existiam entre eles e a renunciar aos pecados de impureza aos
quais estavam acostumados, por meio do arrependimento.
Por meio de suas cartas, São Paulo descreve
tanto a natureza quanto a dinâmica da conversão como um processo pelo qual se
adquire uma nova vida centrada em Cristo Jesus. A palavra "conversão"
era usada no contexto histórico devido aos seus significados em hebraico e
grego no Antigo Testamento. O termo "conversão" significava um
retorno a Deus e era expresso com o verbo hebraico *sûb*, que significa
"retornar". No entanto, quando usado neste contexto bíblico, adquiriu
o sentido de retorno a Deus. A Bíblia grega usava os verbos *epistréphein* e
*metanoéîn* para se referir à conversão. O primeiro indica uma mudança no
comportamento e nas práticas externas; hoje poderíamos chamá-las de
"comportamentos" observáveis e mensuráveis. O segundo se refere
mais à mudança interior provocada por um sentimento de arrependimento e pelo
desejo de reformar a própria vida. O verbo *metanoéîn*, com seu substantivo
*metanoia*, era bem conhecido no grego clássico com o significado de mudar o
espírito ou a intenção de alguém, alterando a direção do pensamento.
Dessa forma, vemos como esses verbos, tanto em
hebraico quanto em grego, expressam duas dimensões diferentes de conversão na
linguagem bíblica. A dimensão externa envolve comportamentos ou costumes
contrários ao que agora acreditavam; portanto, a conversão significava
separar-se de práticas incompatíveis, afastando-se da incredulidade e das
práticas comuns de idolatria, em que adoravam deuses. A dimensão interna da
conversão envolve a retificação da mentalidade necessária para permanecer com
Deus. Juntos, esses dois elementos, interno e externo, significam o retorno a
Deus por meio de um sentimento de arrependimento que nos ajuda a transformar
nossa maneira de pensar, para que possamos mudar nossas ações que nos
distanciam de Deus.
É por isso que São Paulo, em sua carta aos
Romanos 12:2, diz: “Não se conformem com este mundo, mas transformem-se pela
renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a
boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Aqui, ele nos diz que, para
transformar nossas ações, ou o que os psicólogos hoje definiriam como
comportamentos, devemos primeiro passar por uma transformação interior em nossa
maneira de pensar, ou o que poderíamos chamar, neste contexto, de nosso “mundo
cognitivo” (percepções, crenças, pensamentos) que reside na razão, para que
possamos, por sua vez, alcançar uma mudança em como nos sentimos. É por isso
que afirmamos que “sentimos como pensamos” e, em última análise, agimos como
sentimos.
São Paulo fala em linguagem teológica, mas
também pode ser interpretado sob uma perspectiva psicológica. Ele explica o
dinamismo interior que deve ser gerado na mente por meio da transformação da
nossa maneira de pensar, para que essa transformação possa, por sua vez,
ocorrer na pessoa e, consequentemente, se manifestar em comportamentos ou ações
coerentes com essa nova maneira de pensar.
Os neuropsiquiatras têm contribuído
significativamente para a nossa compreensão de como o cérebro estabelece as
conexões que nos ajudam a desenvolver novas formas de pensar. Múltiplos
sistemas de memória sustentam múltiplos processos de aprendizagem. O hipocampo
é vital para a aprendizagem, permitindo-nos criar novas conexões e armazenar
novos fatos ou memórias. Nossas memórias são todas interconectadas. Elas mudam
constantemente, mesmo quando aprendemos algo novo; essas memórias estão em
constante evolução, inclusive enquanto dormimos.
Está comprovado que podemos fazer mudanças
significativas em nossa maneira de pensar. O cérebro agrupa pensamentos em
fragmentos com base em categorias definidas por som, utilidade ou significado.
Esses fragmentos são formados quando a memória de trabalho, localizada no
córtex pré-frontal, se conecta com a memória de longo prazo, onde residem os
padrões de pensamento armazenados anteriormente. Combinar esses padrões em um
único fragmento facilita o funcionamento do cérebro. Não precisamos nos lembrar
dos detalhes; uma vez que armazenamos o fragmento, já sabemos seu significado
ou como usá-lo. Esses fragmentos são formados por meio da prática e da
repetição. Para formar um único fragmento, eles geralmente são unidos a partir
de fragmentos menores. Esses fragmentos menores devem ser aprendidos
separadamente até que o fragmento final possa ser combinado. Por fim, o que é
repetido torna-se permanente e o cérebro o reconhece como benéfico.
Mas o que acontece se criarmos padrões de
pensamento falhos baseados em crenças errôneas sobre a vida, as pessoas e até
mesmo a fé? É muito provável que essa transformação da mente, da qual São Paulo
fala e que neuropsiquiatras e psicólogos cognitivos têm explicado recentemente
sobre o funcionamento do nosso cérebro, não seja possível.
Por isso, para que ocorra uma verdadeira
conversão — uma transformação em nossa maneira de pensar — devemos seguir
princípios básicos de como nosso cérebro funciona. Não podemos incorporar novos
aprendizados se não estivermos focados; ou seja, se não nos concentrarmos em
tentar compreender o que desejamos saber. Um segundo aspecto é que não podemos
assimilar algo que não entendemos. Por isso, para integrar uma nova maneira de
pensar que pode até nos ajudar a mudar uma maneira falha de pensar, precisamos
entender esse novo conhecimento. Para formar um padrão de conhecimento,
precisamos que esse novo conhecimento não apenas seja compreendido, mas também
que se conecte com as outras informações que temos em nossa memória de longo
prazo. Finalmente, podemos praticar essa nova maneira de pensar em nossas
mentes, conectando-a ao contexto em que ela pode ocorrer, ou o que chamamos de
amplo espectro (cenário global). Podemos até relacioná-la a outro corpo de
conhecimento, criar metáforas, transferi-la para outras áreas e assim por
diante, para tentar integrá-la ao nosso sistema de conhecimento existente.
Quando aplicamos o que os neuropsiquiatras
descreveram ao tema religioso da conversão, e especificamente ao que São Paulo
disse em sua carta sobre transformar nossa maneira de pensar para mudar os
comportamentos que nos afastam de Deus e nos reaproximar Dele, compreendemos
que há um elemento ainda mais importante: a experiência pessoal interior. Ou
seja, o primeiro passo é, sem dúvida, tentar compreender aquilo que podemos
rejeitar por não o conhecermos profundamente ou verdadeiramente. Talvez por não
termos tido a oportunidade; talvez por termos tido uma experiência negativa com
alguém que se apresentou como modelo sobre o assunto; ou talvez simplesmente
por termos acreditado em algo errado ou por ignorância. Feridas emocionais do
passado que não foram devidamente integradas também podem nos afastar de Deus.
Aqui reside a importância não só de tentar compreender, com a faculdade da
inteligência que Deus nos deu, tudo o que possa iluminar nossos pensamentos,
buscando compreender sob diferentes perspectivas o que tem sido um enigma para
nós mesmos, sabendo que também teremos a ação do Espírito Santo para iluminar
nossa razão com a Sua luz.
Falar de conversão significa necessariamente
falar da experiência pessoal que nos leva a mudar algo em nossas próprias
vidas. Esse novo valor que podemos adquirir pela razão, transformando nosso
pensamento de modo que ele transforme nosso modo de sentir pelo arrependimento
e, consequentemente, nosso modo de agir, só é possível com a graça de Deus, que
nos conduz a uma experiência pessoal do Seu amor, dando um novo e transcendente
sentido a toda a nossa existência. O chamado à conversão que São Paulo nos faz,
seguindo o exemplo de Cristo, é uma iniciativa de Deus, mas nasce do livre
desejo da humanidade de encontrar um sentido diferente para a própria vida; é
uma resposta de amor da humanidade a Deus e vice-versa.
A conversão abrange um processo dinâmico
composto por uma série de movimentos interiores de natureza psicológica e
moral, impulsionados por motivações intelectuais e emocionais. É por isso que
algumas conversões são motivadas pelo anseio intelectual de encontrar a
verdade. Outras são impulsionadas pela necessidade humana de transcendência, de
buscar um ideal de vida mais puro, de fazer algo grandioso com a vida recebida
como um dom. Outras ainda são motivadas pela falta de um significado
transcendente e vital experimentado na própria vida. Existem até conversões de
natureza emocional, em que uma pessoa, devido a um evento pecaminoso em sua vida,
uma ferida que precisa de cura ou uma experiência profundamente dolorosa,
encontra a graça nessa busca, ou mesmo nesse "fundo do poço" de sua
humanidade. Essa graça não apenas toca sua alma, mas penetra inicialmente seu
mundo emocional e afetivo, conduzindo-a dessa experiência de amor a um
sentimento de arrependimento e perdão. Isso, por sua vez, a leva a iniciar um
caminho de conversão, mudando os comportamentos autodestrutivos que a
distanciaram de Deus.
Em última análise, não importa por qual
dimensão a graça da conversão chegue. Seja pela dimensão cognitiva, através da
compreensão, alcançando nossa razão e, assim, nos permitindo transformar nossos
pensamentos, que por sua vez transformam nossos sentimentos e, em última
instância, nosso comportamento, ou seja, pelas emoções ou diretamente à nossa
alma, em nossa dimensão espiritual. O que importa é poder iniciar hoje um
caminho de conversão, que não se conquista apenas pelo esforço humano, mas pela
liberdade da pessoa que diz sim a um Deus de amor para que Ele possa conceder
essa graça como um dom que transbordará em seu interior.
A conversão é uma tarefa que nunca termina na
vida de um cristão; talvez seja a tarefa mais importante que temos nesta vida
para viver neste vale de lágrimas, um prelúdio para o céu, através da
experiência do amor de Deus, ao qual todos podemos ter acesso universalmente e
sem distinção, independentemente do nosso passado, e, por sua vez, alcançar a
vida eterna.
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