IMAGINAÇÃO TEOLÓGICA
A imaginação é a capacidade de formar uma
imagem mental de algo não presente aos sentidos, ou nunca antes totalmente
percebido na realidade. Parece lógico e teologicamente seguro afirmar que tudo
o que existe já existia na mente de Deus antes de Ele criar, tornando-O o
Imaginador supremo e infinito. É uma capacidade que o Criador transmitiu
exclusivamente à humanidade por meio da imago dei (imagem de Deus).
Todos a utilizam em algum nível, todos os dias. A imaginação é a base de toda
metáfora, embora provavelmente sua forma mais comum seja a memória.
Distinguimo-nos de todas as outras criaturas sencientes da Terra não apenas
pela cogitação, mas pela imaginação. Sem ela, não haveria arte ou arquitetura,
música ou poesia, matemática ou geometria, jogos ou invenções. Tudo o que torna
a vida não apenas suportável, mas verdadeiramente prazerosa, depende da
capacidade humana de imaginar.
Aqui, porém, estou falando de um tipo muito
específico de imaginação: a imaginação teológica. Ao começar a trabalhar neste
texto, descobri que muito mais já foi escrito sobre o assunto do que eu
imaginava. E nem tudo é bom, ou mesmo ortodoxo. Portanto, preciso delimitar um
pouco minha definição para maior clareza. Da forma como estou usando o termo, a
imaginação teológica não é meramente um exercício de pensamento livre de mentes
decaídas, mas uma capacidade de pensar fora da caixa (cogitare extra arca archa),
porém dentro dos limites ordenados por Deus (delimitados pelo restante da
revelação divina).
Os escritos de C.S. Lewis estão repletos de
personagens que personificam sua imaginação teológica: de Aslan a Orual, de
Ransom a Screwtape. A imaginação teológica de Lewis, contudo, não se limitava a
personificações ficcionais. Ele também a empregava para auxiliar na elaboração
de abstrações doutrinárias. Por exemplo, ele propõe uma maneira
imaginativamente útil, não de explicar, modelar ou compreender a Trindade
(todos esses verbos seriam presunçosos demais), mas de conceber (imaginar) a
Trindade em termos dimensionais.
O que quero dizer com imaginação teológica
(doravante IT), então, é tanto a capacidade quanto a disposição de usar essa
habilidade dada por Deus, semelhante à de Deus, para conceber além do que um
texto específico diz, especialmente quando o que o texto diz parece
inconcebível. Em outras palavras, em sua melhor forma, a IT é uma demonstração
de confiança inabalável nas palavras de Deus, a aplicação da fé para acreditar
no inacreditável simplesmente porque Deus o diz, chegando ao ponto de imaginar
maneiras pelas quais a confiabilidade das palavras de Deus possa ser validada.
Um exemplo bíblico de TI
A Bíblia está repleta de exemplos de pensamento
crítico diante de probabilidades impossíveis: o desafio de Mordecai a Ester
("quem sabe...?"), os três amigos de Daniel enfrentando a fornalha
("nosso Deus pode nos livrar. Mas, se não..."), a oração de Asa
diante de um milhão de etíopes ou a de Ezequias diante das ameaças de
Senaqueribe, Jesus e as doze legiões angelicais. A Bíblia também registra
exemplos de falhas fruto da imaginação: Israel no Mar Vermelho, no deserto ou
às portas de Canaã, Acabe indo para a batalha incógnito , a imprudente manobra
de Geazi para enganar um vidente.
Na minha opinião, porém, o principal exemplo de
TI é Abraão em Hebreus 11:17-19. O ponto crucial da passagem é a fé de Abraão
na promessa de Deus. Está bem claro no texto. Abraão é identificado como
“aquele que recebeu a promessa” (Hb11:17) e Isaque como aquele “de quem foi
dito [prometido]: ‘Por meio de Isaque a tua descendência será chamada’” (Hb11:18).
A passagem coloca a promessa de Deus bem diante dos nossos olhos para que
vejamos que, no final, era disso que Gênesis 22 realmente tratava – não das
prioridades de Abraão, mas da fé de Abraão. Tiago confirma isso quando
argumenta (Tg 2:21-23) que a fé de Abraão na promessa de Deus de uma
descendência inumerável (Gn 15:6) foi evidenciada por sua disposição em
obedecer ao mandamento de Deus a respeito de Isaque (Gn 22). Mas é Hebreus 11
que nos dá uma visão do raciocínio de Abraão.
O cerne do dilema de Abraão residia na aparente
contradição entre uma promessa de Deus e uma ordem de Deus. O mesmo Deus que
disse,
Sara, tua mulher, te dará um filho, e chamarás
o seu nome Isaque; estabelecerei com ele a minha aliança, uma aliança perpétua,
e com a sua descendência depois dele (Gênesis 17:19).
agora disse,
Toma agora teu filho, teu único filho Isaque, a
quem amas, e vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto num dos montes
que eu te mostrarei (Gênesis 22:2).
O relato do Gênesis não dá qualquer indício de
que a ordem tenha gerado conflito ou dilema para Abraão. Ele nunca questiona,
nunca hesita; sua ação é decisiva, sua fala calma e deliberada, seus movimentos
firmes e ininterruptos até que o chamado repentino do anjo detém a mão de
Abraão quando ele estende a mão para pegar a faca. Como pôde Abraão ser tão
resoluto diante de uma ordem tão catastrófica e contraditória?
A essa altura, parece que a confiança de Abraão
nas palavras de Deus era tão reflexiva, tão instintiva e inabalável, que ele já
havia chegado a uma conclusão surpreendentemente imaginativa a respeito de
Isaque: ele considerou* que “Deus era capaz de ressuscitá-lo até mesmo dentre
os mortos”, se isso fosse necessário para cumprir sua promessa (Hb11:19). *[A
palavra no texto é logizomai, que significa calcular, ponderar, inferir,
raciocinar.]
O que torna isso tão extraordinário, é claro, é
que Abraão não tinha nenhuma base revelatória para chegar a tal conclusão, e
certamente nenhum precedente histórico de que a ressurreição de Isaque fosse
uma possibilidade. No entanto, ele estava tão convicto da confiabilidade das
palavras de Deus que lhe era mais fácil imaginar que Deus faria algo totalmente
sem precedentes do que a possibilidade de falhar em cumprir suas palavras à
risca. A disposição de Abraão em pensar fora da caixa é um dos exemplos mais
marcantes de imaginação teológica na Bíblia.
Para a compreensão das promessas escatológicas
de Deus, é extremamente instrutivo observar que o instinto de Abraão não foi
repensar a promessa divina a respeito de Isaque de uma maneira que pudesse
acomodar mais facilmente essa reviravolta inesperada. Ele não raciocinou:
“Talvez Deus se referisse a descendentes espirituais; talvez, quando prometeu a
terra a mim e aos meus descendentes por meio de Isaque, estivesse falando
figurativamente”. Convencido do significado direto das promessas de Deus,
Abraão se apegou deliberadamente aos detalhes das palavras divinas e usou sua
imaginação para concluir que Deus faria algo absolutamente único e sem
precedentes, em vez de deixar de cumprir exatamente o que havia prometido.
Alimentação e Cercas TI
Spurgeon observou certa vez que o zelo é como o
fogo; requer tanto ser alimentado quanto vigiado. O mesmo pode ser dito da
imaginação teológica.
O habitat natural da imaginação situa-se logo
além das explicações definitivas da palavra de Deus, como um cão preso a uma
corrente longa o suficiente para lhe permitir explorar os limites da
propriedade do seu dono. Uma vez que se liberta da coleira e vagueia livremente
para longe do seu legítimo centro de autoridade (ou seja, aquilo que a
revelação aborda de forma definitiva), a imaginação pode adentrar todo tipo de
território estranho e até mesmo herético. O perigo, portanto, reside em
tornar-se (perdoem o trocadilho) dogmático em relação à própria imaginação.
Por outro lado, com cuidado e atenção, um pouco
de TI pode contribuir muito para fortalecer a fé, aliviar as tensões que surgem
de nossas limitações mentais (muitas vezes autoimpostas) e dar às palavras de
Deus o benefício de quaisquer dúvidas que possam surgir devido à nossa
incapacidade de imaginar como Ele poderia fazer exatamente o que disse que
faria.