Definindo Escatologia
De onde veio essa palavra? Diz-se que a palavra
escatologia apareceu pela primeira vez em uma obra de 1845, Anastasis; ou a
Doutrina da Ressurreição do Corpo, de um certo George Bush. No entanto, a
palavra foi encontrada em sua forma latina na Dogmática de Philip Heinrich
Friedlieb, de 1644. Kim Riddlebarger escreve que “escatologia é uma combinação
de duas palavras gregas, eschatos, 'último', e logos,' a palavra', significando
'a doutrina das últimas coisas'”.
Isso já cria alguns problemas, sendo um dos
principais pontos de discórdia para os céticos. Uma das objeções mais comuns à
Bíblia vem daqueles que afirmam que Jesus e os Apóstolos acreditavam claramente
que a volta do Senhor aconteceria durante a vida deles. Não aconteceu.
Consequentemente, esses céticos acusam as Escrituras de erro. Algumas dimensões
disso terão que ser abordadas mais adiante em nosso estudo. Por ora, gostaria
apenas de chamar a atenção do leitor para o uso da expressão “últimas coisas”
nas Escrituras.
Em seu livro, A Bíblia e o Futuro, Anthony
Hoekema explica:
“As palavras ‘nos últimos dias’ (en tais
eschatais hēmerais) são uma tradução das palavras hebraicas ‘achairey khen’,
literalmente ‘depois’. Quando Pedro cita essas palavras [de Joel 2:28] e as
aplica ao evento que acaba de ocorrer, ele está dizendo, na verdade: ‘Estamos
nos últimos dias agora.’”
Além disso, “Quando a expressão é encontrada no
singular, porém ('o último dia'), ela nunca se refere à era presente, mas
sempre à era vindoura, geralmente ao Dia do Juízo Final ou ao dia da
ressurreição”. O mesmo padrão é observado em relação à palavra “fim” (synteleia),
de modo que “fim dos tempos” (epi synteleia tōn aiōnōn) indica o mesmo que
“últimos dias”, enquanto, quando usada no singular, “fim da era” (tēs
synteleias tou aiōnos), trata-se especificamente de seu ponto de término. Isso
nos dá mais do que algumas pistas de que existe um reducionismo do conceito de
“último” que pode alimentar o ceticismo e empobrecer nossa própria doutrina.
Este seria um bom momento para esclarecer que
minha abordagem não será misturar apologética com escatologia. Datas tardias
para este ou aquele livro no cânon (ou sua exclusão do cânon) com base na
inclusão de profecias estão fora de questão. Por quê? Porque essas conclusões
derivam da premissa naturalista de que a profecia preditiva é impossível. Seria
necessário um trabalho apologético à parte para refutar essa premissa. O mesmo
se aplica à alegação mencionada de que o Novo Testamento é invalidado pelas supostas
esperanças frustradas de Jesus e dos Apóstolos. Isso obviamente pressupõe que
toda essa linguagem sobre as “últimas coisas” possa ser reduzida a essa
expectativa superficial. Embora não iremos interagir com o cético — este é um
estudo da doutrina para o crente —, deixaremos de lado esse reducionismo ao
longo do texto. Como disse um estudioso do Novo Testamento, a ideia de “últimos
dias”, “fim dos tempos” e assim por diante tem muito mais a ver com questões
qualitativas do que quantitativas.
Outro problema que surge ao restringirmos nossa
visão das “últimas coisas” é o cultivo da descrença no mundo eterno à medida
que este adentra o mundo temporal. Podemos nos deparar com modelos que ou o
naturalizam em excesso ou o espiritualizam demais, outros que não correspondem
à promessa do reino e outros que a superestimam. É importante, nesta doutrina,
assim como em qualquer outra, não formar nossa visão por mera reação.
Herman Hoeksema escreveu sobre escatologia como
um loci desta forma:
“Não se refere de forma alguma às coisas
eternas. Refere-se ao fim do mundo e às coisas que imediatamente o precedem e
que devem conduzir ao fim, mas não se aplica à nova e eterna criação de Deus,
onde o tabernáculo de Deus estará com os homens.”
Chego a me perguntar o quanto dessa insistência
foi motivada pela polêmica de Hoeksema contra a escatologia neo-ortodoxa, na
qual Karl Barth e outros contrapõem a eternidade ao tempo, sendo este último
“engolido” pela primeira. Podemos admitir que o modo de falar de Barth estava
mergulhado em obscurantismo. Podemos também rejeitar qualquer visão do estado
futuro em que a experiência criatural não seja mais criatural. Mas não queremos
jogar fora a criança da participação criatural na eternidade junto com a água
do banho da confusão entre Criador e criatura. Às vezes, “últimas coisas”
significa apenas últimas coisas em relação à linha do tempo. Outras vezes,
“últimas coisas” significa últimas coisas tendo em vista o fim causal (telos)
de todas as coisas.
Em todo caso, a Bíblia se expressa dessa
maneira, "orientando-se para o fim da história". Considere apenas
três frases usadas (ao todo) em cinco passagens.
“Saiba disto: nos últimos dias sobrevirão
tempos difíceis” (2 Timóteo 3:1; cf. Hebreus 1:2).
“Ele foi conhecido antes da fundação do mundo,
mas foi manifestado nos últimos tempos por amor de vocês” (1 Pedro 1:20; cf. Jó
18).
“Filhinhos, esta é a última hora; e, como
ouvistes que vem o anticristo, já agora muitos anticristos têm surgido. Por
isso sabemos que esta é a última hora.” (1 João 2:18)
O que caracteriza um reducionismo é quando todo
o assunto é reduzido a um estudo sobre os “últimos tempos”, como se isso fosse
uma doutrina autossuficiente. A reação exagerada de Hoeksema ao obscurantismo
de Barth é apenas um exemplo da tentativa de isolar a escatologia em nome da
precisão ou mesmo da fidelidade bíblica a este ou aquele conjunto de textos.
Tal abordagem só levará a uma simplificação excessiva. Na verdade, a
escatologia não pode ser compreendida adequadamente sem que se observem pelo
menos algumas de suas conexões com outras doutrinas principais ou mesmo com
conceitos subjacentes à teologia sistemática.
Elementos de uma Escatologia Bem Abrangente
Comecemos pela protologia. Essa não é uma
palavra que costumamos encontrar como título em teologia. Eu a chamaria, na
verdade, de um daqueles "conceitos subjacentes". Significa
simplesmente o estudo das "primeiras coisas". Podemos ver essa
relação claramente entre protos e escatos, duas palavras gregas que significam
o que vem primeiro e o que vem por último em uma progressão linear. Mas e se a
própria natureza da teologia exigisse que as últimas coisas tivessem sido
"incorporadas" às primeiras coisas?
Teólogos como Irineu e estudiosos bíblicos como
G. K. Beale chegaram a demonstrar diversas maneiras pelas quais até mesmo a
revelação pré-queda é escatológica, seja no que diz respeito à prefiguração de
Cristo por Adão ou à prefiguração do Templo Final pelo Éden. Exploraremos
alguns desses pontos com mais detalhes. Por ora, basta considerar que, se Deus
é onisciente e onipotente, e se o decreto divino é único, segue-se — mesmo numa
relação minimalista entre protologia e escatologia — que Deus teria, no mínimo,
previsto todas as eventualidades do fim em Seu projeto da criação original do
mundo e da humanidade.
Se formos mais além, então Deus não apenas
“levou as coisas em consideração”, mas também projetou o mundo e os seres
humanos de tal forma que haja continuidade entre suas naturezas originais e
aquelas naturezas que serão aperfeiçoadas no estado futuro. Isso também se
aplica aos primeiros movimentos de redenção na história. Consequentemente,
estudar escatologia é também estudar teleologia. Isso significa simplesmente o
estudo de “coisas orientadas para um objetivo”. Se Deus criou todas as coisas
para a Sua glória (Romanos 11:36) e para o nosso bem (Romanos 8:28), então
todas as coisas já estariam projetadas para esse fim.
Note-se que isso não implica um projeto
original que siga sozinho em direção a esse objetivo, sem levar em consideração
os elementos da queda, da redenção e da restauração que se seguem. Esses dois
são "projetados" como aspectos de um projeto maior que, lembre-se, é
um só no decreto eterno.
Isso demonstra imediatamente porque a
teleologia não implica logicamente o universalismo em relação à salvação, nem a
evolução ou o progressismo em relação à vida natural ou às esferas sociais.
Esse télos singular também é inescapável da perspectiva da teologia bíblica. As
Escrituras sempre falam de duas eras: esta era e a era vindoura. A implicação é
sempre que algo cataclísmico deve ocorrer para pôr fim definitivamente a uma
força obscura que impulsionava as coisas na primeira era. Mas essa não é uma
reação divina. Não é um Plano B. Criação, queda, redenção e restauração fazem
parte de uma mesma trajetória divinamente ordenada.
Um terceiro conceito a ser considerado na
escatologia é a hamartiologia. Esta palavra vem do grego e significa pecado (hamartia).
Se considerarmos a própria natureza da queda do homem como má e a restauração
de todas as coisas como o objetivo óbvio — começando imediatamente em Gênesis
3:15 — torna-se mais claro que tudo na Bíblia a partir daí é escatológico. A
era vindoura é sempre mencionada como a resolução de tudo o que pertence ao
pecado e à maldição. Paulo inicia sua carta aos Gálatas falando de Cristo, “que
se entregou a si mesmo pelos nossos pecados para nos livrar desta presente era
perversa” (1:4). Além disso, o avanço do reino de Cristo é descrito por Paulo
como uma série de subjugação dos inimigos ao reinado do Filho: “O último
inimigo a ser destruído é a morte” (1 Coríntios 15:26). Se a morte é o
resultado do pecado (Romanos 6:23), então a eliminação final do pecado é crucial
para a escatologia.
Isso nos leva naturalmente a outro aspecto, a
saber, a soteriologia. Esta é a doutrina da salvação. A escatologia descreve,
entre outras coisas, a salvação sendo levada à sua plenitude. A teologia
reformada se destacou, com razão, em sua ênfase soteriológica. Contudo,
afastada de seus fundamentos clássicos, a teologia reformada mais moderna
sofreu do que eu chamo de gnosticismo soteriológico. Em outras palavras,
natureza e graça são colocadas em uma antítese universal, de modo que nenhuma
distinção adicional é considerada entre, digamos, a natureza divinamente
projetada em oposição à natureza pecaminosa, ou natureza caída.
Um conceito reconciliador nos ajudará a escapar
desse gnosticismo soteriológico. No Evangelho, a graça aperfeiçoa a natureza.
Foi assim que Tomás de Aquino expressou. Diz-se que Bavinck ecoou essa ideia,
mas com a fórmula mais restritiva: a graça restaura a natureza. Nesta última
concepção, Deus torna tudo o que está errado em certo. Já na primeira, Deus
torna tudo o que era bom ainda melhor.
Comparar as expressões exatas atribuídas a
Tomás de Aquino e Bavinck pode se tornar um exercício de preciosismo. O
importante é não perdermos de vista o equilíbrio. Por um lado, a perfeição não
é um "rebobinar" ou um "reiniciar", mas uma bem-aventurança
eterna e sempre crescente. Por outro lado, embora "melhor" signifique
um elemento de descontinuidade, o elemento de continuidade também é importante.
Por exemplo, é importante para um crente ter a esperança de reconhecer seus
entes queridos no Senhor. Que eles de fato se reconheçam implica continuidade
entre a velha criação e a nova.
A soteriologia nos lembra, em nossa
escatologia, que essa graça aperfeiçoada deve ser a graça salvadora em Cristo
para ser uma boa notícia. Assim como a salvação é particularista, a escatologia
também deve sê-lo. Nenhuma visão ortodoxa pode sustentar que as coisas melhoram
naturalmente — seja pela graça comum, por processos evolutivos, por ideologia
ou mesmo pela Igreja assumindo o controle de qualquer um desses aspectos. O
último ato de Cristo é descrito como uma “salvação pronta para ser revelada no
último tempo” (1 Pedro 1:5); e, portanto, para nós, “esperar do céu o seu
Filho, a quem ressuscitou dentre os mortos, Jesus, que nos livra da ira
vindoura” (2 Tessalonicenses 1:10).
Finalmente, nossa escatologia deve sempre estar
fundamentada na Cristologia. Não pode haver um reino sem seu Rei. Naturalmente,
os defensores das diferentes visões sobre o milênio se acusarão mutuamente de
minimizar a importância de Cristo. Abordaremos esse assunto mais adiante.
Certamente, podemos concordar que tal minimização não deve ser feita. Toda a
nossa organização nessa doutrina é vazia sem Cristo no centro. Ele é chamado de
“o fim” (telos) da lei (Rm 10:4), mas Paulo também fala de “seu propósito, que
ele estabeleceu em Cristo como um plano para a plenitude dos tempos, de reunir
nele todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra”
(Ef 1:9-10). A tentativa de compreender melhor a escatologia por meio dos
outros campos da teologia será inútil sem ver Cristo como o centro de cada um
deles, ou de sua resolução.
Ao reunirmos todos esses elementos, chegamos ao
que Geerhardus Vos viu, na escatologia de Paulo, como uma antítese entre o
primeiro e o último homem, e entre o primeiro e o último mundo. Uma vez
estabelecida essa categoria na mente, a escatologia deixa de ser um ponto final
(ou série de pontos) no fim de uma sequência da esquerda para a direita, e
passa a ser a invasão do mundo mais real nas terras sombrias da rebelião. E, se
ainda não estiver claro, isso contribui significativamente para refutar o
mal-entendido cético sobre Jesus e os Apóstolos esperarem o fim de todas as
coisas em seus dias.
Kenneth Gentry, He Shall Have
Dominion (Chesnee, SC: Victorious Hope Publishing, 2009).
Kim Riddlebarger, A Case for
Amillennialism (Grand Rapids: Baker Books, 2003).
Anthony Hoekema, The Bible and
the Future (Grand Rapids: Eerdmans, 1979)
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